terça-feira, 18 de outubro de 2016

CANTO ANÔNIMO



Não é teu o céu pintado
à guache, lápis-lázuli
a iluminar oásis
de cactus e marfim.

Nem é tua a labareda,
a história dessa guerra
coração fincado à terra
e à argila carmesim.

Teus são a planície e o sal
o granito, a ovelha atônita
a mulher e a voz afônica
de tanto chorar sem fim

Pelos filhos e espectros
plasmados a gesso
em momento de recesso
sob tônica e gim.

Não é tua a terra própria
nem a vida, nem a morte
Em tuas mãos há lama e corte
E teu nome é Serafim.

Terá fim esse cansaço?
Ou o fim deste mormaço?
Haverá fim o anonimato
a perseguir Serafim?

Um poema de Marcia Tigani


E se o tempo parasse, seria agora nesse instante, no pulsar letárgico do ponteiro do relógio, no tiquetaque antecessor a campainha tocar, precisamente às nove horas. É o banho de sol no pátio. Desaparecem os maus cheiros. Somem as baratas, os ratos. Agentes não são vistas, nem de tocaia. Mãos, com unhas coloridas, surgem segurando as grades e as mulheres, pouco a pouco, diminuem o som das suas vozes na iminência de saírem das celas. Os pensamentos que nunca param dão trégua à mente. 
Durante aquele minuto de espera, a cadeia procura o silêncio. Entra num tempo zero, onde nada existe e nada acontece. A vida se reinicia justamente com o toque do sinal, recomeça exatamente no momento em que as portas das celas se abrem. Sempre assim, um dia após o outro. E neste instante único, estamos tão fora, ou tão dentro de nós mesmas, que olhamos sem nos ver, porque o que interessa é o pouco de liberdade que ainda nos resta. O banho de sol no pátio.
Pensei que era coisa da minha cabeça. Depois de um tempo aqui, nada parece real, um nevoeiro surge e distorce a visão, a porra toda fica estranha. Sempre estou em dúvida se o que sinto é real, se o que vejo é o que enxergo. Pergunto para Let se na Ala B acontece o mesmo. Ela confirma, diz que não estou louca. 
Em outro instante, tudo acaba. O sinal, o corredor, e estamos na pátio. Zilma comanda ao celular. E as biscas fumam em um canto. Let me passa o cigarro. Conversa, fala um pouco do Ubaldo, o filho mais velho, a avo arranjou um jeito de mandar o menino para o colégio. Let é só alegria.

Prosa de Grazi Brum

CARRANCAS




com as sacas do ano, o medo
refaz seu curso em modorra.
já sem justeza, desova.

um anjo senhor da terra
vê e volca aquela cria;
mais de um brâmane cochicha.

a insônia com seu arquivo
não poupa um só ruído;
doge moço coça a pálpebra

ofertando morte-almíscar.
o abate o cervo ferve:
ira até roça, mordisca.

- onde as ventas, tosco dente
quente cólera e cabeça
que nos salvem destas bestas?

Poema de Caio Graco Maia 

ESBOÇO DE DANÇARINA




I
dança do ventre
alquimia da matéria
frágeis laços que se atam
agasalhados nas estrelas
braço de constelação
luzes de vagalumes
esboço de poema
nudez conjugada em verbos

II

palavras cuspidas em pedras
n’algum ponto do horizonte
debruço-me rascunhos
perco-me no avesso de mim.

CAMALEÃO

Como expor-me a ti
com tantos defeitos
tantas inquietudes
tantos desajustes.
Do nascente ao poente
me isolo, me afasto
tomo outra cor
— sou camaleão.


Poemas de Yara Darin

NERVOS REVISITADOS



Amiúde se faz o corte.
No tempo da fala
a faca despeja o lanho
e espera o último peso
para ensacar a memória.
Nos dedos,
o sangue pisado das vendas
acaricia as carnes.
A feira leva um dia,
mas a cena sangra
só algumas horas.

Poema de Katia Marchese

para Carlos Araújo






...às asas, pássaro!
Rumino o encargo.

Ligadura de voo,
tua glosa agreste
bem se quis. Aqui,

luziu suas
leis duras,

buscou um
canto, uma

quina.
Afeita ao

corte,
foi penúria
e sal essa

Língua.


Um poema de Guilherme Delgado

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

















Na chuva conto
As estrelas da lua
E entro no mar


Na tempestade
Derrubando árvores
Cigarras cantam...
 
Poemas de Hélio Cherubini